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Thursday, February 10, 2011

 

Eu e a praça Tahir

Dia desses vendo a crise no Egito eu me pus a refletir sobre as peculiaridades do Turismo. É que o noticiário falava do repatriamento dos assustados estrangeiros capturados pela crise naquele país. Imediatamente me passou pela cabeça como os turistas costumam voltar encantados de países que tem regimes autoritários. Ate ai normal, esse tipo de viagem em massa é realmente um exercício superficial ao extremo, muitas vezes não ultrapassando os limites do Hilton local ou resorts que o valha. O que me irrita nesses viajantes é a recorrente frase que eles trazem na sacola afirmando que depois da sua temporada agora conhecem tal e tal país. Como se a sua rasa experiência de poucos dias em ilhas encantadas fosse suficiente pra compreender um lugar. Vale contextualizar a coisa, eu estava na mesa do jantar com a Lu, vitima habitual dessas minhas digressões. O ponto é que num determinado momento eu falei que aqueles que porventura estivessem no país da Esfinge deveriam aproveitar aquela ocasião, permanecendo como espectadores da revolução, afinal essa seria uma grande oportunidade de dar real lastro à um conhecimento mais sério do lugar. Foi então que a Lu riu sarcástica e disse que com certeza eu seria o primeiro a partir. Frase seguida de um medroso que tu és.Pois é, a Lu costuma acertar 99 por cento das observações sobre a minha pessoa, pois além de muito esperta ela cumpre mais de uma década ao meu lado ou bem pertinho. Mas dessa vez ficamos num errinho de um por cento. Medroso eu sou, porém com certeza eu ficaria. E a razão pra tanta certeza é bem simples , toda essa crise do Egito pra mim tem um gosto especial. Eu vivi a praça Tahir, aqui mesmo em nosso país tropical (uns trinta e poucos anos atrás). Minha praça Tahir eram as ruas de Porto Alegre no final dos setenta, quando o movimento estudantil e os sindicatos retomaram as passeatas contra a ditadura militar. Claro, era muito menos gente num contexto bem maias restrito. Mas não se iludam , guardadas as proporções a coisa era bem séria. E eu estava lá, com certeza preocupado com a repressão. Bom, se vocês olharem uma foto minha na época dá pra entender perfeitamente, eu era um baixinho magrela num tempo em que não existia Muai Thai e outras autodefesas. Dia desses vendo o lindo livro da Libretos sobre aquele período (abaixo a repressão ) eu acho que me vi numa foto típica da época, uma panorâmica da massa desafiando a policia em meio à grandes nuvens de gás lacrimogênio. E eu era tão fracote que não consigo saber se aquela figurinha correndo no meio da fumaça (com uma enorme pasta de desenho na mão) era eu mesmo ou uma garota, uma colega do aplicação.No fim das contas isso não importa, o fato é que eu estava lá, como estive em muitas outras passeatas, sempre com medo da porrada, rezando pra que inevitável carta aberta à população fosse lida o mais rapidamente possível, olhando com o rabo d’olho a massa de coturnos que aos poucos iam nos cercando. ir. E era a praça Tahir sim, quando do anonimato dos escritórios aquela gente cinza do centro da cidade mandava ver papel picado sobre nós. Era a praça Tahir sim porque havia um sentimento comum que nos levava, muitos de nós bem garotos a enfrentar uma organizada e furiosa tropa de choque. A de Porto Alegre tinha macacão azul e um capacete laranja especial e não era nada divertida quando avançava batendo o cassetete no escudo.Quem se lembra desse som sabe que aquelas ruas e praças eram a nossa praça Tahir sim. E hoje bem mais velho, no conforto da minha casinha classe media eu não posso deixar de sorrir quando a multidão se move gloriosamente anárquica lá no Egito avisando que o medo já não serve de trava. Dessa vez a Lu errou, com certeza eu estaria lá. E na verdade eu estou.

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