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Wednesday, January 07, 2009

 

Lastro e Motor de Propulsão

Escrevi um texto para um evento sobre a importância de formar novos leitores,a ser realizado em Portugal neste janeiro.

Lastro e Motor de Propulsão
Por obra de meus pais os livros sempre fizeram parte da minha vida. A eles devo o aprendizado da melhor forma de estimular o amor pela literatura, através do simples exercício do exemplo. Acredito que são bastante válidas as iniciativas de fomento ao hábito da leitura que hoje abrangem um amplo conjunto de ações no ambiente escolar (encontro com autores, visitas a feiras e editoras, sessões de leitura, etc ), porém tenho minhas reservas quanto a sua plena eficácia se os estudantes não encontram em casa um exemplo por parte de seus familiares. Cheguei a esta conclusão ao observar – com alguma estranheza – país que trazem todo um discurso de valorização do livro totalmente dissociado de sua prática cotidiana, muitas vezes traduzida em casas com pouquíssimos (para não dizer nenhum) exemplares e escassa leitura. Tenho uma filha bem pequena (3 anos) e sinto que tenho o dever de proporcionar-lhe desde muito cedo as chaves para este verdadeiro tesouro que é a literatura, mas justamente por este motivo resolvi que o melhor a fazer é deixar que a mera observação do exercício apaixonado da leitura por seus pais cumpra o papel de seduzi-la, sem o terrível e inútil peso das pressões e o castigo das tarefas obrigatórias. E de fato esta forma de pensar tem surtido um efeito maravilhoso. Antes mesmo de dominar o código da escrita a pequena abraça, envolve e devora seus livros, sem contar seus passeios investigativos pelas diversas obras “adultas” que a casa possui, livros bem grandes próximos de outros exemplares muito pequenos,vários tipos de atlas ilustrados,um outro tanto de livros muito velhos e misteriosos, livros coloridos, livros sisudos. E ela ainda tem para seu deleite os livros que seu papai faz, algumas vezes sob seu olhar curioso (tenho a felicidade de trabalhar em casa).Por estas razões me sinto realizado em dar continuidade a um processo mágico que veio lá da minha própria infância quando percorria com o olhar fascinado as várias estantes da casa paterna, ocasião em que confesso adquiri também inocentes vícios como a capacidade de identificar diferentes cheiros nos livros, um aspecto bastante sensorial da abordagem literária. De olhos fechados podia (e ainda posso) identificar velhas enciclopédias, livros técnicos, coleções de aventura. Ainda hoje certas publicações tem o poder de me transportar no tempo só pelo aroma do papel ou da cola utilizada na sua confecção. E foi na biblioteca de meus pais que descobri maravilhado também que os livros eram a “casa” de ilustrações fantásticas, tão poderosas muitas vezes quanto a magia dos textos que as haviam inspirado. Numa enciclopédia chamada Trópico descobri a Guerra de Tróia, meu tema favorito aos sete anos. Também mergulhei nas selvas de Tarzan, viajei no Oriente com as aventuras de Karl May e até voei com Julio Verne.. E através do gênio de Monteiro Lobato encontrei meu próprio país. Pouco depois descobri Gustave Doré! Nunca mais o mundo seria o mesmo, nem meu desenho, que deixou de ser um exercício solitário a partir do momento em que percebi que eu fazia parte de um grande fluxo de idéias e sonhos. Desde então tenho o hábito de me referir aos autores que mais me tocaram como meus amigos, como de fato são, posto que a literatura na minha vida tem sido apoio indispensável nos momentos difíceis, quando tudo nos parece confuso e sem perspectiva. Nestas horas alguns livros são o lastro que me mantém a prumo em plena tempestade. Por outro lado, se não fosse sua poderosa força como motor de propulsão da criatividade através do exercício da imaginação sinto que minha vida seria pequena, limitada como uma pequena habitação. Como um quarto fechado e sem livros nas paredes...
Florianópolis, 26 de Dezembro de 2008.

Comments:
Belo texto, amigo. Engraço que recentemente escrevi um texto que tem essa necessidade de revitação a infância, sorte a nossa de sermos pais.
Foi uma pena o desencontro em Sampa, mas em breve vou estar por aquelas bandas.

Grande abraço!
 
Muito legal o texto. Como professora de línguas, acho super importante em sala de aula levar livros (sejam eles em Português ou Inglês) para comentar, apresentar, trabalhar trechos e, assim, despertar a curiosidade.

Como formadora de cidadãos, por outro lado, considero de mesma importância despertar o interesse na leitura de textos informativos de diversas fontes (diferentes sites, jornais, blogues), já que é por meio da informação que formamos nossas opiniões, pensamos em argumentos e nos posicionamos.

Beijos e parabéns pelo texto =)
 
ooops. faltou dizer que o comentário foi da paola hehe
 
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