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Tuesday, September 09, 2008

 

Teresa

Teresa estava cansada muito cansada. A casa tinha sido ocupada nos últimos dias e não existia um só lugar que não houvesse sido devassado por visitantes. O ritmo das tosses marcava o compasso das intermináveis horas de espera. Moribundos são assim, tem o espetáculo anunciado , marcham direto para o desfecho mas adoram saborear o domínio da situação e tal como um chefe de seção nos fazem esperar longas horas nos sofás da espera. Então as gentes fumam e conversam e suspiram e temem também pelo seu momento, que deverá chegar um dia se deus quiser daqui a muito tempo. E no olho do furacão Teresa disfarça o cansaço e distribui gêneros e ditados e se movimenta o tempo todo ostentando papel de capitão do navio seguro da rota e lá vai Teresa providenciar mais café e cuidados para todos. Em momentos estratégicos ela exerce o supremo direito de entrar no aposento onde Rui Mauro se esvai lentamente quase virado em sopro mas que teimosamente se mantém preso ao lado de cá com seus grandes olhos agora maiores do que tudo já prestes a conhecer toda a verdade ou uns cinco por cento, o que dá no mesmo. Ainda faz sinais e com muito esforço poderá ainda dizer algo importante e por isto Teresa não se permite ficar longe muito tempo,claro que a menina está vigiando de olhos bem atentos mas não é bom confiar nos outros mesmo que seja nessa menina velha que cumpre todas as coisas pedidas como se fossem um ritual sagrado e agora tem barulho demais na sala ,será que esta gente perdeu a noção das coisas? deve ser por causa da tv que deixa todo mundo louco onde é que já se viu faltar o respeito numa hora dessas? Fala um daqui a pouco eu volto e pelo amor de deus avisa qualquer alteração com o doente e lá vai Teresa mais cansada ainda disfarçar seu cansaço em eficiência e altivez de espírito. Rui Mauro acompanha tudo como se fosse no cinema, como se tivesse bebido muito e ido ao cinema, com um pouco de febre também e então os personagens e ambiente mudam o tempo todo e tudo parece confuso demais a princípio mas o tempo passa e gente vai acostumando e até gosta e seria de rir saber que estar moribundo nem é tão ruim assim apesar de ser o fim. O pensamento compensa a inércia do corpo e já ensaia a liberdade da alma e voa e voa cada vez mais alto e longe, brincando de visitar pessoas e lugares já muito remotos, quase improváveis e a medida que assume o controle da nova situação Rui Mauro se diverte misturando personagens da infância, velhos romances e parentes queridos numa ciranda cada vez mais alucinada e que contrasta com o corpo pálido, desfeito em suor e miasmas, a pele convertida em cera mergulhada nos vapores de um quarto quase mortuário e aquela menina velha pavorosa que é melhor não ver com seu olhos fixos encarnados na missão de assinalar a hora final da passagem e onde diabos afinal anda Teresa que é a única coisa boa do lado de fora desta minha morte tão comprida e ,quando não dá pra brincar, tão chata. Meu deus alguém bem que podia abrir a janela e despachar esta menina velha para Manaus, ai Teresa onde você anda!
E Teresa agora recebe mais gente e comanda novos grupos, porém sempre com a cabeça dentro do quarto vigiando e esperando se Rui precisar algo e então sente uma campainha chamar com desespero e tudo ao redor congela e corre rápido para o quarto onde Rui agora faz um esforço muito grande porque seu vôo delirante foi interrompido por uma necessidade urgente de fazer um pedido acompanhado de um medo enorme de não conseguir mais falar- afinal quanto tempo faz da ultima vez? - justo agora que seria fundamental e meu deus não permita que eu parta sem deixar algo tão importante sem resolver .
- por favor venham palavras! minhas últimas palavras não me faltem pelo amor de deus e venha você Teresa também, que não a de ser pra esta menina velha horrorosa que eu vou deixar este pedido crucial e pelo amor de deus Teresa entendeu o chamado, deve ser porque o clima da casa criou uma enorme energia estática e assim foi que cruzando os ares densos da casa Teresa entrou no quarto que já era quase só o olhar gigantesco do Rui Mauro que pedia sua proximidade e mal deu tempo pra expulsar a menina velha pra sala, posto que a morte como qualquer necessidade fisiológica deve ser íntima, em seguida encostou o rosto na máscara do Rui que num esforço de trem subindo montanha mal pode dizer: Pelo amor... Deus......não deixa.....hipótese..nenhuma....................................................não .... em caso algum...............-.e num arranque quase como um grito com mínimo volume - Teresa! não deixa de jeito nenhum o Monza nas mãos do Adilson!!! e daí olhou com os olhos imensos pro nada onde sentava um minuto atrás a menina velha horrorosa.
Então descansaram os dois, cada um do seu lado do muro.

Comments:
meu deus! hahahahaha
muto boa!! Fantástico!!
hahaha
Alemão, te descubri aqui! Que coisa, meu!
To pra te mandar uns textos e um rascunho. Ia te falar mas não encontrei teu e-mail e te encontro aqui, debaixo da escada desse texto, rindo. Não, não...
Buenas, vou ver teu blog. []'s!!
 
Ok, eu confesso.
Fui enganado mais uma vez, assim como todas as vezes em que eu caí nos teus trotes ao telefone.
Eu jurava que era um texto sério, com todos aqueles miasmas, leito de morte, os olhos grandes do moribundo...
Como não ser uma leitura com o fim único de fazer refletir sobre a finitude do ser e a ausência de sentido da existência?
Mas não!
Era uma anedota!
Maldição! Era uma anedota e ela me pegou desprevenido. Estava no maior climão de existencialismo e, quando menos esperava...
QUÁ! QUÁ! QUÁ!
Eu já devia ter aprendido, depois de tantos trotes!
Abraço, amigo véio.
Moa
Agora vou voltar pra minha leitura do Tinta China, que foi interrompida só pra ver o que é que tu estava fazendo por aqui...
 
oi
bárbaro teu trabalho, conheci agora atraves do marshal.
parabens!!
na real queria uma informação sobre viagem m picchu,se puderes me contata
pintinhobeck@hotmail.com
abraço
ligia beck
 
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